Sobre os Cartãozecos
Porquê?
Há quem faça vídeos com grandes cenários, câmaras caras e equipas de produção…
Eu faço bonecos de cartão no quarto da casa da minha avó, no Alentejo.
Primeiro, porque estou desempregado e tenho muito tempo livre.
Segundo, porque não tenho nada para fazer.
E assim nasceram os Cartãozecos.
Como tudo começou
Há quem faça vídeos com grandes cenários, câmaras caras e equipas de produção…
Eu faço bonecos de cartão no quarto da casa da minha avó, no Alentejo.
Primeiro, porque estou desempregado e tenho muito tempo livre.
Segundo, porque não tenho nada para fazer.
E assim nasceram os Cartãozecos.
Como tudo começou
Até aos 15 anos, dormi com um patinho de peluche. É verdade.
Andavam os meus amigos a curtir com as suas namoradas e a começar a sair à noite, enquanto eu ficava em casa agarrado ao pato. Deram-mo de prenda aos dois anos de idade e ainda o tenho ali guardado. Tenho 36 anos.
Em criança, falava com o pato todos os dias. Tinha voz própria e tratava-o bem, tão bem como a um filho. Se calhar, devia ter ido ao psicólogo?
Em segredo, dizia ao pato que um dia iria tratar a minha mulher tão bem como o tratava a ele. Mas a verdade é que a trato mesmo bem. A minha companheira de vida pode confirmar!
Passei toda a minha infância a brincar com peluches. Tinha uns trinta, daqueles em miniatura que vinham nos Happy Meal do McDonald's. Comia tanto daquilo que fiquei redondo, mas também fiquei cheio de peluches! Cada peluche tinha uma voz diferente. Arranjava sempre maneira de lhe dar uma voz original, fosse com um sotaque, de outro país ou etnia. O que importava era que tivesse a sua própria identidade e personalidade.
Fui crescendo e hoje quase a chegar ao quarenta (!), continuo a fazer vozes malucas todos os dias! Há dias em que acho que só falo com a minha companheira através de vozes tolas, e ela retribui com uma resposta ainda mais tola. É amor.
Ainda tenho dois peluches no quarto e, todos os dias, olho para eles. Fazem parte do meu círculo de amigos. Sair à noite? Não posso, já tenho planos! Ah, sim? Sim, vou ficar em casa, deitado na cama, a jogar consola enquanto falo com a minha mulher e os meus dois peluches.
Caramba, até o meu cão tem voz própria. O periquito também. As galinhas também!
Com o passar do tempo, ganhei maturidade. Não parece, eu sei, mas é verdade. Aprendi que devemos seguir aquilo de que gostamos, independentemente das opiniões ou dos julgamentos dos outros. Interiorizar isto é mesmo difícil numa sociedade de aparências. Aprender a seguir o nosso próprio caminho. Mas só agora o consegui. Por ter tido uma educação normal, ensinaram-me que ser doutor é que é bom. Escolhi design. Ora toma.
Mas demorei muito tempo a tirar cá para fora este rapaz que adora imitar vozes e ser um adulto infantil. E agora, até me cansar, vou exorcizar a minha criatividade e as minhas vozes para estranhos ouvirem. Só pode correr bem.
Espero que os Cartãozecos vos divirtam tanto como a mim, pois, para mim, só o facto de a minha mulher se rir quando lhe mostro um episódio já me faz ganhar o dia, o mês e a própria vida.
André
*P.S.: O Bongo leu este texto e disse que estava OK.*